A Primeira Vez, de Joy Fielding

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Nem sempre os romances nos levam para mundos encantados, com um “felizes para sempre”, e pode sim, nos arrastar para o mais fundo da realidade da vida e das emoções humanas. Contudo, tenho a impressão que a maioria das pessoas sempre buscam ler livros que tenham sempre um final feliz, e fogem desesperadamente dos dramas e dos possíveis finais sofridos. Eu sou assim, devo confessar. É lógico, no entanto, que a realidade nem sempre se expressa com dores e tristezas. Na vida real também há os “finais felizes”. Eu acredito nisso. Porém, não consigo deixar de ter a oportunidade de apreciar a leitura e a emoção de um bom drama, quando ele se apresenta, que nem sempre promete um "final feliz", jogando conosco na balança da esperança e das possibilidades. A Primeira Vez (The First Time, no original. Publicado pela Editora Rocco, em 2002), de Joy Fielding, é um livro assim. Um romance catártico, que nos conta uma dura história de crise familiar, mas que nos comove com uma bela lição de vida, através dos laços de afeto familiares, do amor, da redenção. 

Eu comecei a ler esse livro após ler um trecho emocionante no Blog Lilith, aqui (Cuidado, pode ser Spoiler. Para mim, não foi.), que me despertou a curiosidade. Normalmente, seria um livro que não leria. Uma leitura comovente e intensa, de uma das histórias mais lindas que já li. 

A Primeira Vez
Joy Fielding


"Quando se quer alguma coisa, sempre se dá um jeito, Mattie repetiu mentalmente, imaginando por que as pessoas criticavam os clichês. Os clichês proporcionavam uma tranqüilidade enorme. Falavam de previsibilidade, de familiaridade, de permanência. Quanto mais tênue sua saúde, mais Mattie apreciava as verdades fáceis e as generalidades abrangentes: o amor move o mundo; o amor conquista tudo; o amor é melhor na segunda vez. Só que nunca houve uma primeira vez." (Mattie, p. 282)


Na vida podem surgir novidades terríveis, modificando tudo, abalando estruturas, nos desestabilizando, nos deixando sem escapatória... Não há enganos. A vida tem seu ponto final também, não é?! No entanto, será que não há nem um fio tênue de esperança para amenizar todas as outras coisas?

Martha Hart, porém mais conhecida por todos como Mattie, para muitos que a vissem podia imaginar que ela era uma mulher de sorte: casada com um belo e charmoso advogado criminal de sucesso, Jake, com uma filha linda de 15 anos, Kim, e morando em uma elegante região aos arredores de Chicago. Porém, tal impressão não poderia estar mais errada. Sua vida era um vazio. Um casamento que sobrevive a 16 anos, mas sem amor. Um casamento para acontecer deveria partir da premissa do amor, um laço mais profundo do que a gravidez de uma criança inesperada. Mas amava a filha de todo o coração. Ambos amava a filha, e mesmo com os inúmeros casos de infidelidade de Jake, levavam aquele casamento por causa dela.  

Jake Hart, um bem-sucedido advogado criminal de Chicago, vive uma vida infeliz ao lado da mulher. Afundado sempre no trabalho, mas nunca se dedicou muito a família. Ele mesmo guarda magoas e culpas de um passado triste, que nunca revelou para ninguém. E agora estava preso a um casamento que não levava em conta, a não ser pela filha. Há semanas ensaiava uma maneira de deixar a casa, e viver de vez com Honey Novak. Sua amante, a mulher com a qual poderia relaxar.  

Mattie vem sentindo dormência nos pés, caindo à toa. Porém, naquele dia tudo estava estranho. Depois de um surto inesperado de risos no meio do tribunal, humilhando seu marido, e uma crise de choro diante de um cliente, ela sofre um acidente inesperado de carro. Após chegar em casa do hospital, chocada, ela descobre que Jake está pronto para sair de vez de casa. Mesmo abalada, ela encara aquilo de cabeça firme, pois, talvez, isso fosse o melhor para ambos. Alguns dias depois, diante da insistência desconfiada e preocupada da amiga médica para que ela fizesse alguns exames, ela descobre que sofre de uma doença degenerativa, sem cura, com pouco tempo de vida. Diante dessa inesperada notícia, Jake, carregado de culpa, resolve voltar para casa e cuidar da esposa, mesmo com os protestos de Matie. Mesmo diante dessa situação, ele mantém sua relação com Honey.  
 
Circunstâncias que põe a família diante de dúvidas, incertezas, medos e a inevitabilidade de um destino injusto. Novos valores deverão ser resgatados para enfrentar o que está por vir. Não será fácil. Kim recebe o pai com grande agressividade, mas precisará entender que o necessitará após a morte da mãe. Mattie lutará contra todas as adversidades para se manter forte, aceitando até mesmo o marido com passividade. E Jake terá que descobrir os verdadeiros motivos que o levou a voltar para casa, ao lado da mulher doente. Mas o convívio diário com a esposa, poderá desperta a paixão que nunca, talvez, tenham existindo entre eles. Será possível para essa família renovar e fortalecer seus laços tão frágeis de afeto? É possível um marido e uma mulher que há tanto tempo vivem distantes, encontrar e vivenciar o amor verdadeiro pela primeira vez?


***  
"Essa era uma das coisas que adorava na arte, concluiu Mattie. Era precisa, permanente, meticulosa, limitada por linhas. Mesmo o rabisco mais escandaloso em geral era resultado de muito raciocínio. A vida, por outro lado, era transitória, fugaz, desalinhada. Não tinha importância se escapasse das linhas. Droga, passava por cima delas feito rolo compressor." (Mattie, p. 217) 

Uma das coisas mais importantes desse romance escrito por Joy Fielding é a profunda reflexão sobre a vida e dos rumos abruptos e imprevisíveis, por vezes injustos e indesejáveis, que pode tomar e nos empurrar inevitavelmente para fundo. Cogita sobre escolhas, certas ou erradas, crises familiares, a brevidade da vida, dores e alegrias, enganos e concertos. Todavia, no final, sempre há a redescoberta e a redenção através de um sentimento, ao mesmo tempo simples e complexo, das mais diferentes formas de amor.  

A narrativa envolvente, é tecida através de três pontos de vistas: Mattie, a esposa com uma doença terminal. Jake, o marido que se sente preso em um relacionamento sem amor, no entanto perturbado por terríveis sentimentos de culpa. E Kim, a filha desse casamento complicado, bem mais ligada a mãe e agressiva com o pai. Relacionamento mantidos a distância, mas que nunca se rompem.  Durante a leitura, temos uma boa dose do que é isso, especialmente quando os sentimentos de todos eles são tão bem despidos e exposto para nós leitores.

Os personagens são intensos, complexos e suas atitudes puramente humanas, esboçados na escrita minuciosa e sensível da autora. Matie é uma fortaleza. Uma mulher inteligente, que nunca mostra resignação, lidando com tudo de cabeça erguida. Ela enfrenta uma doença difícil, E.L.A., Doença de Lou Gehrig. Suas falas são carregadas de pura franqueza, mesmo com o marido, mesmo quando tudo parece um jogo de fingimento. Jake é o personagem mais complexo na trama, um homem que evolui e aprende muito durante toda a história. Difícil não se comover com ele, mesmo quando a vontade era de lhe dar um soco. E Kim, apesar da personalidade madura, não deixa de sofrer com as confusões e a insegurança de perder a mãe, de reagir com agressividade e rebeldia.  

A história passa por varios meses, estações do ano. Os personagens amadurecem. Apesar de ser de fácil leitura, a trama é complexa, pois aborda fatos e questões delicadas, difíceis de serem pensados e construídos, principalmente quando envolve a descrições do psicologico e das reações tão humanas diante de temas, como família, doença, relacionamentos, sexo, futuro, morte e vida. Nem todas as causas que motivam algumas posturas e ações dos personagens são convincentes para justificar ou desculpar tais atitudes, o que os torna ainda mais humanos. A história possui certa previsibilidade dos acontecimentos, no entanto há uma tenue linha de expectativa que nos traz aquelas supresas boas, de que tudo vai ficar bem, não importa como, que nos desperta até os sorrisos.  

O romance, apesa de triste, é maravilhoso. E o título, A Primeira Vez, tão bem justificável. É impossível não mencionar que chorei litros, que senti angústia, compaixão, compreensão e ganas de raiva em alguns momentos. E mil coisas passam pela cabeça. Apenas algumas circunstâncias no final me perturbaram um pouco, e me fez questionar as atitudes de Mattie. Um final marcante e simbólico. Um drama familiar delicado, sensível, mas que não deixa de ser uma história de amor muito romântica e profunda. 
 Leiam, apenas leiam para saber como é que é... É isso! =)
 Classificação:
 



Trecho de A Primeira Vez:
 "A confusão fez as sobrancelhas de Jake se unirem sobre o nariz. 
— Não estou entendendo. No telefone você disse que eu tinha de vir para casa imediatamente. Parecia muito urgente. Algum problema? 
— Você quer dizer além do fato de eu estar morrendo e de você estar transando com outras mulheres? 
Um segundo de silêncio. 
Tinha ido longe demais, pensou Mattie, prendendo a respiração. 
— Fora isso — disse Jake. 
E de repente os dois começaram a rir. Risadinhas nervosas que cresceram e viraram gargalhadas de alegria, alimentadas pelo choque, motivadas pela tensão, compensando sem esforço a distância entre eles. Deram risada com um abandono completo, até a barriga doer e as entranhas ameaçarem explodir, até ficarem quase sem ar. Riram tanto que por um momento esqueceram que ela estava morrendo e que ele transava com outras mulheres."


Informações:  
Sobre a autora: http://www.joyfielding.com/




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14 comentários:

Lariane disse... [Reply]

Ela morre mesmo?

Já tinha ouvido falar deste livro, mas não com tanto profundidade como sua resenha...

Acho que é um livro que eu me identificaria muito, muito mesmo... Melhor, não sei... vou ter que ler para saber né?

Linda e perfeita resenha.


Beijo,
Lariane - www.leiturasedevaneios.com.br

Beli disse... [Reply]

Oi, @Lariane!

A história é comovente! Eu adorei! Talvez, vc realmente goste... Só lendo para saber mesmo!

Bjuss

Adriana T disse... [Reply]

Não conhecia esse livro, amei sua resenha e vou adicionar na minha lista de leitura com toda certeza. Eu gosto muito de dramas familiares e esse realmente parece ser muito bom.
Obrigada por compartilhar conosco.
Garota Eclética.

Naniedias disse... [Reply]

Uau! Eu nunca daria atenção a esse livro não fosse a sua resenha!
Confesso que sou fã dos finais felizes... mas alguns livros, principalmente quando bem escritos, ficam ainda melhores com finais mais "realistas".
Adorei esse livro, já vou adicioná-lo ao meu skoob.

Niii disse... [Reply]

esse trecho me deixou ainda mais curiosa!
Quando eu tiver num clima de livros mais complexos e comovente quem sabe!
agora da Rocco? medo =x

bj

Hérida Ruyz disse... [Reply]

Oi Beli!
Confesso que não gosto de romances tristes. Estou numa fase em que preciso do bom e velho felizes para sempre. rsrs
BJs

Beli disse... [Reply]

Oi, @Adriana T!

Um drama familiar muito intenso! A leitura me emocionou demais! Um dos livros que eu realmente compartilho e indico para quem gosta do genero!

bjuss

Beli disse... [Reply]

Oi, @Naniedias!

Puxa! Esse livro não chama mesmo a atenção, mas ele é maravilhoso! Um livro que merece ser descoberto e lido! Acho que vc iria gostar!

Bjuss

Beli disse... [Reply]

Oi, @Niii!

É um livro que pede um momento mais comovente mesmo... para chorar! rs. Mas não diria que é um livro complexo, mas que trata de questões mais sérias...

É Rocco... é carinho! =S
Mas na Estante Virtual vc encontra o livro bem barato! hahah

Bjuss

Beli disse... [Reply]

Oi, @Hérida Ruyz!

Ele é triste, sim... Mas foi uma boa leitura! O que me inspirou um pouco foi seu lado romantico... hehe
É exige um momento mais sensivel mesmo...

Bjus.

Nanda disse... [Reply]

Ei Beli,

Ai eu quero, eu gosto de livro triste, são mais reais que os romances felizes para sempre rsrs. Mesmo chorando litros amei os últimos de drama que eu li.

Adorei este, só a capa que não chama muito a atenção rs.

bjos

Ana Carolina Nonato disse... [Reply]

Olá, Beli!

Eu adorei saber deste livro, sabia? Acho muito bons livros que nem sempre tem um final feliz. A vida não é tão justa assim (ou por ser injusta ela chega a ser justa? Não sei). Bom, eu sei que eu adorei a sua resenha! Acho muito interessante este modelo de resumo + avaliação, embora não consiga fazê-lo, rs. Muito bom!

Abraços!

Ana Carolina Nonato
Blog Seis Milênios

Ana Ferreira disse... [Reply]

Oi, Beli! Como vai?

Primeiramente, meus sinceros elogios à sua resenha que talvez não ficasse tão boa se não estivesse extensa dessa forma agradável e que nos embala verdadeiramente.
Sabe que o que mais me atrai nos livros, quase que invariavelmente, é o título. Mais que a capa, mais que o autor, mais que tudo... Acho que um título pode denunciar muitas coisas a respeito da história, assim como pode complementá-la e eu certamente leria "A Primeira Vez" por esse título tão delicado e sentimental.
Achei a temática fantástica, muito triste, o que não a torna menos de forma alguma. Sou apaixonada por dramas bem conduzidos, posso dizer que meu gênero literário favorito é aquele em que o livro em questão comove, deixa sua marca em mim de alguma forma. Uma boa história deve ser perturbadora e tenho certeza de que essa o é.
Meus parabéns também pela escolha dos trechos, que apenas enfatizou a inconstância dos sentimentos humanos e como mudamos de valores quando postos de frente a situações tão delicadas como a de Mattie e Jake...
Vou correndo adicionar o livro no Skoob :)

Beijinhos,
Ana - Na Parede do Quarto

Mari Sampaio disse... [Reply]

Ai.... engraçado como muitas vezes somos atraídos por esses livros, mesmo sabendo que o final será muitas vezes triste e inevitável. Adorei sua resenha, fiquei com muita vontade de ler!

Beijos

Mariana Sampaio
Blog Tijolinhos de Papel

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